A culpa de não dar conta

Hoje, um assunto voltou a aparecer com força: a culpa.

Não a culpa evidente, ligada a algo concreto que precisa ser reparado. Mas uma culpa mais silenciosa. Aquela que aparece quando a pessoa começa a não conseguir mais sustentar o lugar que ocupava na vida dos outros.

Mais tarde, olhando para o livro A Menina que Carregava Pedras, fiquei pensando que algumas culpas são assim mesmo.

A gente carrega uma.
Depois outra.
Depois mais uma.

E, quando percebe, começa a achar que o peso faz parte da própria identidade.

Tem culpa que nasce quando a pessoa sente que falhou em continuar sendo quem todos esperavam que ela fosse.

A filha disponível.
A profissional que resolve.
A mãe que dá conta.
A liderança que aguenta.
A amiga que entende.
A pessoa forte, útil, compreensiva, presente.

E quando esse lugar começa a rachar, a pergunta costuma vir com medo:

“Será que estou sendo egoísta?” 

Nem sempre é egoísmo.

Às vezes é limite.
Às vezes é cansaço.
Às vezes é amadurecimento.
Às vezes é só a vida mostrando que uma forma antiga de pertencer ficou pesada demais.

Na clínica, nas empresas, nas escolas, nas famílias e nas relações, isso aparece de muitas formas.

A pessoa não diz sempre: “estou me sentindo culpada”.

Às vezes ela diz:

“não posso decepcionar.”
“eu deveria dar conta.”
“não quero magoar ninguém.”
“se eu parar, tudo desanda.”
“se eu disser não, vão achar que eu mudei.”
“se eu escolher por mim, vou parecer egoísta.”

E, aos poucos, a culpa vira uma espécie de contrato silencioso.

A pessoa continua ocupando um lugar que já não cabe. Continua respondendo a expectativas que já custam caro. Continua sustentando uma versão de si que talvez tenha sido importante um dia, mas que agora pesa no corpo, no sono, nas escolhas e na saúde emocional.

Isso também acontece no trabalho.

Há profissionais que carregam a culpa de não responder tudo na hora.
Lideranças que carregam a culpa de não conseguir sustentar a equipe inteira.
Pessoas que carregam a culpa de descansar.
De pedir ajuda.
De não estar tão produtivas.
De não conseguir mais funcionar como antes.

E muitas vezes, antes de alguém reconhecer o próprio limite, já houve muito esforço para parecer bem.

Por isso, falar de culpa também é falar de cultura emocional.

Porque o sofrimento não nasce apenas dentro da pessoa. Ele também nasce nas relações, nas expectativas, nos silêncios e nos ambientes onde alguém precisa negar o que sente para continuar pertencendo.

A culpa pode ter uma função importante.

Às vezes, ela nos ajuda a reconhecer um erro, reparar uma atitude, pedir desculpas, ajustar o caminho.

Mas culpa também precisa ter medida.

Depois da reparação possível, se ela continua pesando, talvez já não seja consciência.

Talvez seja uma pedra antiga.

Uma pedra que a pessoa aprendeu a carregar para não perder amor, lugar, aprovação ou pertencimento.

E talvez uma parte importante do cuidado seja poder perguntar, com honestidade:

essa culpa está me ajudando a reparar algo real ou está apenas me mantendo presa a uma versão de mim que já não cabe? 

Nem toda culpa é consciência.

Às vezes, é medo de perder pertencimento.

E quando conseguimos perceber isso, talvez a vida comece a ficar um pouco menos pesada.

Não porque tudo se resolve de uma vez.

Mas porque, pela primeira vez, a pessoa pode olhar para aquilo que carrega e perguntar:

isso ainda precisa vir comigo? 

Referência afetiva do livro: A Menina que Carregava Pedras, de Adriana Zanonato e Luiz Carlos Prado.

Sobre a autora

Luciana Vanzo é psicóloga, fundadora e direção da Humana Mundi, onde conduz processos de psicoterapia, supervisão clínica e projetos institucionais voltados à maturidade emocional.

Este texto integra o Conversas Humanas, espaço de pensamento, escuta e encontros da Humana Mundi.

Humana Mundi · por Luciana Vanzo