Quem cuida de quem cuida dentro das empresas?
Em settings de escuta corporativa, algumas frases revelam mais do que uma queixa pontual. Revelam o clima, os medos e as contradições de uma cultura de trabalho.
Uma dessas frases ficou comigo:
“Não adianta propor campanha de saúde mental. Para eles, isso parece coisa de ‘abraçar árvore’.”
Quando essa frase vem de alguém do RH, ela carrega muito mais do que ironia.
Carrega cansaço.
Muitas vezes, o RH quer fazer.
Quer propor uma campanha.
Quer abrir espaço de escuta.
Quer falar de saúde mental antes que alguém adoeça.
Quer humanizar um pouco a rotina.
Mas encontra, do outro lado, líderes com metas apertadas, prazos curtos, pressão por resultado e pouca paciência para qualquer coisa que pareça “subjetiva demais”.
E aí o RH começa a recuar.
Não porque não acredita.
Mas porque também tem medo.
Medo de ser julgado.
Medo de parecer ingênuo.
Medo de propor algo que vire piada no corredor.
Medo de ser visto como quem “não entende o negócio”.
Medo de perder espaço, força ou até o próprio trabalho.
Existe uma solidão pouco falada nesse lugar.
A área que muitas vezes é chamada para cuidar das pessoas também precisa se defender para conseguir cuidar.
E isso quase nunca aparece nas campanhas.
Quem escuta o RH quando ele tenta proteger uma cultura inteira, mas também está sozinho?
Quem sustenta essa área quando ela percebe o adoecimento, mas não tem autorização real para agir?
Quem ajuda a traduzir saúde mental para uma linguagem que liderança, operação e negócio consigam levar a sério?
Saúde mental no trabalho não pode ser reduzida nem a uma palestra bonita, nem a uma ação simbólica vazia.
Mas também não pode ser descartada com ironia, como se todo cuidado fosse “abraçar árvore”.
Entre a campanha superficial e a desqualificação apressada, existe um caminho mais sério.
Um caminho que olha para metas, prazos, liderança, comunicação, sobrecarga, conflitos, medo, silêncio e responsabilidade.
Talvez o RH não precise carregar isso sozinho.
Talvez o primeiro passo seja justamente parar de tratar cuidado emocional como enfeite e começar a enxergá-lo como parte da estrutura de trabalho.
Porque quando uma empresa só olha para saúde mental depois que alguém adoece, ela já chegou tarde.
Na Humana Mundi, olhamos para o trabalho como um lugar de vínculo, comunicação, cuidado e responsabilidade.
Saúde mental não deveria entrar na empresa apenas quando alguém adoece.
Sobre a autora
Luciana Vanzo é psicóloga, fundadora e direção da Humana Mundi, onde conduz processos de psicoterapia, supervisão clínica e projetos institucionais voltados à maturidade emocional.
Este texto integra o Conversas Humanas, espaço de pensamento, escuta e encontros da Humana Mundi.
Humana Mundi · por Luciana Vanzo


